O meu entrevistado é o Cristian Góes, Sergipano ,Jornalista profissional, servidor federal INSS, especialista em Gestão Pública (FGV/Esaf) e Gestão de Crise (Gama Filho). Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju e presidente do Sindicato dos Jornalistas.
Sempre muito competente e crítico no que faz, Cristian também é alvo de perseguições por partes de algumas autoridades que julgam alguns dos seus argumentos, apesar de não citar nomes em algumas matérias,por causar algum tipo de desconforto.
Aqui, o nosso entrevistado foi indagado sobre os rumos que a união entre informação e tecnologia tomou e de que forma os novos aspirantes à profissionais podem basear-se em pré-requisitos para ser um bom jornalista hoje.
JDN- O que te levou a escolher o jornalismo como profissão?
Cristian- Sou filho de uma professora de Português e desde muito pequeno fui levado à leitura, especialmente de romances e contos. Na escola, essa devoção pelos livros se manteve. E quem lê, mais cedo ou mais tarde, escreve. Quando fui tentar vestibular decidi pelo Direito na UFS e pelo Jornalismo na antiga FITs (Faculdades Integradas Tiradentes). Não tinha Jornalismo na UFS. Ainda bem que não passei em Direito. Era o jornalismo a minha praia.
JDN- Quais eram os principais desafios no início da sua carreira?
Cristian- Inúmeros. Mercado de trabalho pequeno e fechado demais, sem espaço para novidades, censura aberta e subliminar, amadorismo, péssimos salários. Bom, penso que essa realidade não é muito diferente hoje.
JDN- Quais eram os aparatos que você utilizava para buscar as informações das fontes?
Cristian- No começo (início da década de 90) a internet quase não existia nas redações aqui. Não tinham muitos recursos. Eram basicamente o telefone, cartas-denúncias, mas principalmente o contato pessoal do repórter com a fonte. Nós parávamos muito pouco na redação. Apurar significava ir até a fonte, gastar muita sola de sapato e blocos e blocos de papel com anotações.
JDN- Como você costuma armazenar seus dados profissionais como telefones úteis,contatos de fontes etc?
Cristian- Hoje, assim como ontem, tenho uma agendinha com os principais contatos, fontes. Confesso que ela está, em certo ponto, defasada, não de nomes. Figuras que estavam no poder nos anos 90 continuam firmes aí. A mudança é nos números. Pouco uso a caderneta hoje porque todos esses dados estão na internet, públicos, nas páginas pessoais das fontes.
JDN- Você prefere armazenar seus dados no computador ou ainda é adepto das planilhas e ficheiros?
Cristian- Não, nem planilhas, nem ficheiros, nem agendinhas mais. Elas são lembrança importante de um passado não tão longe assim. Hoje, os dados principais estão mesmo no computador e no celular, que na realidade são a mesma coisa.
JDN- Qual o impacto das novas tecnologias no seu trabalho?
Cristian- Elas transformaram e vêm transformando o método de apuração, mas a essência continua a mesma. As novas tecnologias aceleraram a apuração, inseriram o repórter num ambiente virtual de sons, imagens e textos, mas ele ainda precisa apurar para fazer jornalismo. Insisto, para fazer jornalismo. Aquela pessoa que copia e cola informações não faz jornalismo. Qualquer pessoa copia e cola. Jornalista tem que fazer mais que isso. Ele desconfia, apura, pergunta, descobre além do publicado, do divulgado. As novas tecnologias deveriam ser aliadas da qualidade na apuração e, por conseguinte, da melhor informação para a sociedade. Muitas vezes, as novas tecnologias fazem parte de uma engrenagem perversa que mistura preguiça, má-fé e desinformação para sociedade.
JDN- Sem tantas tecnologias no início de sua carreira,era complicado o acesso às informações e diversas fontes?
Cristian- De forma alguma. A diferença era apenas de tempo. As novas tecnologias encurtam o tempo, mas o jornal já era diário, ou semanário. O tempo de produção, no geral, era o mesmo de agora. E as fontes eram encontradas e eram várias as fontes, o que não significava e nem significa hoje pluralidade de informações, qualidade.
JDN- Você lê jornais pela web ou prefere os impressos?
Cristian- Hoje consigo ler das duas formas, mas me sinto imensamente confortável em manusear no papel, parece mais real, é claro que não é, apenas uma forma de expressão. Ao papel você parece dedicar mais tempo de leitura, há uma pequena fruição na reportagem de seu interesse. O on-line parece exigir uma rapidez desnecessária. Fico com a impressão que aquela notícia on-line já é velha porque chagará em segundos uma nova atualização ou o concorrente já deu a mais atualizada.
JDN- Qual a sua opinião sobre os boatos de que o jornal impresso pode parar de circular?
Cristian- Não sou apocalíptico. Não acredito, mas também não sou ingênuo. Mesmo com a pintura, com o rádio, com a televisão, com a internet, com o telefone que é tudo isso e um pouco mais, mesmo apesar de todas as tecnologias o livro impresso continua a bater recordes de impressão, vendas e leitura. Se fala em e-book tem uns 20 anos e o livro impresso continua firme e em crescimento. Observe as feiras literárias pelo país. Superlotadas. Assim é com o jornal. Mudanças, ajustes, convergências, tudo isso é muito bom que chegue porque vai ajuda a qualificar a leitura e a importância do impresso. Agora, o impresso precisa perceber isso.
JDN- De que maneira você aprimorou as suas práticas jornalísticas diante do avanço tecnológico?
Cristian- As novas tecnologias contribuíram para que o tempo fosse estendido, ou seja, não precisava mais me deslocar até o interior do estado para entrevista alguém. No entanto isso não significa qualidade, às vezes é o contrário. Além disso, as novas tecnologias possibilitaram a consulta a uma série de fontes e base de dados, antes mais difíceis. Mas insisto que isso nada tem haver com qualidade diretamente.
JDN- Você considera que as redes sociais são boas fontes de notícias? Qual sua relação com essas mídias?
Cristian- No dia que a rede social for considerada uma boa fonte de notícia estamos perdidos. As redes sociais são muito importantes e estou nela. Tem de tudo nas redes socais, de tudo e isso é ótimo. Elas até podem servir de primeiro contato com alguma informação, um indício para se apurar, o começo de uma história, mas dificilmente vai se constituir numa boa fonte clássica, crível para o jornalismo. Rede social é suporte para informação e não fonte em sua essência, no meu entender.
JDN- O uso de sites e blogs são cada vez mais frequentes. Até que ponto isso ajuda ou atrapalha o jornalista?
Cristian- Depende do uso que você faz deles. O jornalista precisa desconfiar sempre, checar, apurar. Há blogs e blogs, blogs para todos os gostos e quem é jornalista de verdade sabe filtrar aquele que merece atenção daquele que não tem compromisso com os fatos.
JDN- Você mantém contato direto com as redes sociais?O que acontece nessas mídias pode te influenciar na hora da transmissão da notícia?
Cristian- Sim. Mantenho contato permanente. Em lugares como Sergipe em que boa parte da imprensa está presa aos interesses econômicos e políticos de grupos privados e do Estado, as redes sociais para muitos são uma espécie de trincheira para informações. Bom, a depender da força de determinado movimento na rede social algumas informações terão que ser inseridas nos meios tradicionais, mesmo que negando. Lembro-me da campanha que questionava os recursos que a Rede Globo arrecadava no Criança Esperança. O bombardeio foi tanto que ela, a toda poderosa, teve que inserir a cada instante os esclarecimentos sobre a arrecadação.
JDN- Diante dessa discussão,na sua opinião,o que você julgaria como pré-requisitos para ser um jornalista hoje?
Cristian- Essa pergunta é complexa porque tem uma multiplicidade de respostas, a começar pela discussão do que é ser jornalista, tanto faz ontem como hoje. No meu campo, defendo que antes de ser jornalista, ele(a) tem que exercitar a consciência cidadã como ser humano para compreender em que mundo ele vai atuar, um mundo em que ele(a) vai precisar optar por uma prática jornalística que escraviza, desinforma, manipula as pessoas para atender os interesses privados e de Estado. Esta é uma lógica fácil, atrativa porque você será considerado bom jornalista, comerá empadinhas em tudo que festa de socialites, não se indispõe com ninguém, ganhará mimos das empresas, etc, etc, etc. Ou você vai optar em fazer um jornalismo que busca a verdade dos fatos tendo como norte o interesse público, coletivo, que não se cala diante das injustiças, que apenas informa o que há, doa a quem doer. Este caminho é o oposto à fama, mimos, empregos em cargos em comissão em governos. Mas reafirmo, esta questão proposta têm inúmeras possibilidades.
JDN- Que conselho você daria para quem pretende seguir a carreira de jornalista?
Cristian- Que busque ler sempre, todos os dias, a vida toda – falo da qualificação permanente que exercite a consciência cidadã como ser humano e descubra quais as tarefas que a história exige para ser jornalista hoje; que não aceite a mediocridade pequeno-burguesa como ideal de vida; e busque não ser mais um jornalista, mas o jornalista.
JDN-Gostaria de agradecer a entrevista.Esteja à vontade para fazer alguma consideração final sobre o assunto discutido.
Cristian- Desconfie sempre, inclusive do que eu disse aqui.